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28/06/2018

Julho Amarelo alerta sobre os riscos para o fígado

O mês de julho é dedicado às ações de prevenção diagnóstica e tratamento das hepatites, conhecido no calendário nacional de Saúde como Julho Amarelo.  A hepatite é uma inflamação no fígado e pode ser causada por medicamentos, obesidade, chás medicinais, doenças genéticas e autoimunes, além de vírus e bactérias. Trata-se de uma doença silenciosa que atinge mais de dois milhões de brasileiros, mas a maioria deles não tem diagnóstico sorológico.

 

A hepatite medicamentosa, causada pelo consumo indiscriminado de remédios sem avaliação médica adequada, fitoterápicos e alguns chás podem resultar em uma hepatite tóxica grave. E o fácil acesso a propostas de dietas mágicas, terapias alternativas e de culto ao corpo perfeito sem sustentabilidade científica tem se tornado algo comum nos sites e redes sociais.

 

Para entender um pouco mais os riscos à saúde provenientes das práticas da vida moderna, conversamos com o Hepatologista Raymundo Paraná, Coordenador do Núcleo de Hepatologia do Hospital da Universidade Federal da Bahia, que faz um alerta. “Jamais se automedique, tampouco acredite que chás e beberagens são inofensivos por serem naturais. Todo e qualquer medicamento, seja ele sintético ou natural, tem princípios ativos que são metabolizados no fígado, portanto, podem causar doença hepática”. Talvez você esteja sobrecarregando o seu fígado e nem saiba. Confira a entrevista.

 

 

De que forma as práticas da vida moderna como o acesso a informações nem sempre confiáveis da internet, culto ao corpo, estilo fitness anti-envelhecimento podem colocar em risco à saúde?

Dr. Raymundo Paraná – Todos os dias a mídia é inundada com uma série de informações sobre medicamentos naturais ou que modelam o corpo e fazem emagrecer, contudo, na imensa maioria das vezes, não há o menor fundamento científico para utilizá-los. O paciente inebriado acaba caindo nessas armadilhas que esconde em si os riscos que ocorrerão em médio e longo prazo. É importante que o indivíduo não se deixe levar pela propaganda enganosa desses produtos nem pelas falsas especialidades médicas como Medicina Ortomolecular, Iridologia, Naturoterapia, Terapia Detox e outras práticas que fogem ao escopo da ciência médica. Em casos de dúvidas, consulte o Conselho de Medicina.

 

 

Tomar remédio sem prescrição médica pode provocar hepatite?

Dr. Raymundo Paraná – Certamente. Quando se usa um medicamento alopático há informações científicas que nos norteiam acerca dos riscos x benefícios. Já diversos fitoterápicos que são comercializados como suplementos alimentares não possuem sequer bula pela total de inexistência de estudo científico. A hepatite medicamentosa é um dos sérios problemas de saúde no país. Esta situação piora ainda mais com as formulações que contêm dezenas de substâncias. Em centros de transplante do Brasil, a hepatite tóxica é uma das principais causas de indicação de transplante de fígado por insuficiência hepática aguda. As principais causas são os anti-inflamatórios e antibióticos utilizados sem uma avaliação médica adequada. Também alguns medicamentos herbários, como Erva Cavalinha, Mãe Boa, Cáscara Sagrada, Confrei, Sacaca, Óleo de Cártamo, Espirulina e Chá Verde em cápsula estão associados com farta documentação acerca do risco de hepatite tóxica grave.

 

 

Como as hepatites virais são contraídas?

Dr. Raymundo Paraná – Diversos vírus podem causar hepatites. Cada um deles causa uma doença peculiar e se transmite de forma diferente. O vírus da hepatite A é transmitido, principalmente, pelo consumo de água e alimentos contaminados. Causa doença aguda, raramente complicada, mas no paciente adulto é uma importante causa de hepatite grave. O vírus E também pode se transmitir por água e alimentos contaminados, assim como consumo de carne suína mal cozida. Moluscos mal cozidos e outros frutos do mar também podem transmitir a doença. Costuma causar uma doença autolimitada, porém pode ser muito grave em mulheres grávidas, como também pode cronificar em pacientes que estão em tratamento com imunossupressão (transplantados e com doenças reumáticas). O vírus da hepatite B se transmite, preferencialmente, pela via sexual, mas também pode ser transmitido pelo compartilhamento de instrumentos perfuro-cortantes e de mãe para filho na hora do parto ou através da placenta. No adulto, tem 5% de chance de causar doença crônica, pois a maioria dos pacientes apresenta a doença aguda autolimitada com resolução espontânea. Já a criança tem maior risco de evoluir para as formas crônicas. A hepatite C é transmitida principalmente pelo compartilhamento de instrumentos perfuro-cortantes e, mais raramente, pela via sexual.

 

 

Como se dá o diagnóstico de Hepatite?

Dr. Raymundo Paraná – Quando o paciente é sintomático, o diagnóstico se dá facilmente através dos exames sorológicos. Isso acontece mais comumente na doença aguda.

Já nos pacientes com hepatite B e C crônica, os sintomas são escassos. Neste caso, conforme ocorre em outras doenças do fígado, a evolução pode ser silenciosa durante décadas. Assim sendo, o diagnóstico precoce só é realizado se fizermos o teste AgHBs e antiHCV em todos os indivíduos acima de 40 anos ou que pertençam a grupo de risco. Assim, devem ser testados aqueles que têm historia de doenças sexualmente transmissíveis, compartilhamento de instrumentos perfuro-cortantes, os que fizeram uso de injeções com seringa de vidro nas décadas de 60 a 90, todos os que tomaram transfusão antes de 1994 e aqueles que se tatuaram em locais que não tinham alvará da Vigilância Sanitária.

 

 

Quais são as formas mais simples de prevenção?

Dr. Raymundo Paraná – A hepatite A e B são prevenidas pela vacina. No caso da hepatite B a vacina está universalmente disponível no Sistema Único de Saúde. A hepatite A está disponível apenas para o calendário vacinal na infância, contudo recomendo a todos os pacientes que façam o teste antiVHA-IgG. Aqueles que tiverem negativos, significa que estão susceptíveis a doença e devem fazer a vacina antiVHA. A hepatite C não tem vacina, portanto deve-se evitar o compartilhamento de instrumentos perfuro-cortantes, até mesmo tesouras e alicates de unha.

 

 

Dica do especialista

Evite usar formulações, sobretudo aquelas que são estranhamente direcionadas para determinadas farmácias de manipulação e que contêm diversas substâncias sem a menor comprovação científica acerca de segurança e eficácia. O risco aumenta ainda mais com o uso dos anabolizantes. Não use suplementações hormonais para modelação do corpo sem ouvir opinião de um Endocrinologista Clínico experiente. Evite compartilhar instrumentos perfuro-cortantes, até mesmo alicate e tesoura de unha. Sexo seguro, ou seja, com uso de camisinha. Vacine-se contra a Hepatite A e B. Faça o teste AgHBs e Anti HCv pelo menos uma vez. Converse sobre isso com o seu médico.