Portal Médico - Hospital Aliança

ARTIGOS

Eduardo Novaes de Carvalho, Simone M. Machado Furquim White e Gilson Soares Feitosa. Redução do Tempo Porta Balão no Infarto Agudo do Miocárdio
Autor: Eduardo Novaes de Carvalho, Simone M. Machado Furquim White e Gilson Soares Feitosa.

Objetivo

Redução do tempo porta balão no atendimento ao Infarto Agudo do Miocárdio com Elevação do Segmento ST (IAMCST), no Setor de Emergência do Hospital Aliança, utilizando ferramentas de gestão LEAN em Protocolo Gerenciado.

Situação-problema

O tempo porta-balão é definido como o intervalo de tempo médio entre a entrada do paciente na emergência, com dor torácica, até o início da abertura da artéria ocluída. A literatura associa positivamente a redução do tempo porta balão á morbi-mortalidade cardiovascular. Apesar da Instituição dispor de excelentes profissionais e alta tecnologia, existia grande variação dos resultados. O tempo médio era de 125 minutos, acima, portanto, da meta de 90 minutos preconizada pela American Hearth Association. Logo, tornou-se fundamental implantar um protocolo com foco na redução de desperdícios, no atendimento aos pacientes com IAMCST.

Prática implantada

A mudança se iniciou pela prática da gestão, organizada na forma de Time Multiprofissional, conhecido na instituição como Time de Cardiologia, capacitação na metodologia LEAN e utilização da ferramenta conhecida como A3. A técnica A3 utiliza uma folha de 29,7cm por 42 cm onde consta o projeto de melhoria e fluxo de valor.

O mapeamento do estado atual foi a primeira etapa de construção do A3, seguida de análise dos problemas com consequente elaboração de contramedidas.

As “caminhadas ao Gemba”, atividade que corresponde ao percurso físico realizado ao longo de toda cadeia de operações, com o objetivo de observar os pontos críticos, foram fundamentais na execução do Projeto.

O Time de Cardiologia identificou alguns problemas que poderiam causar atraso em cada uma das etapas da jornada do paciente infartado e estabeleceu contramedidas para solucioná-los.

Percebemos também no início da execução do Projeto problemas de comunicação e no fluxo de informações. Não havia, por exemplo, padronização na forma de identificar e atender o paciente com dor torácica com vistas à realização imediata do eletrocardiograma (ECG).

Objetivando a resolução dos problemas mencionados acima (contramedidas) criamos um sistema de identificação precoce da dor torácica (CÓDIGO 99), ativado assim que o paciente chega na recepção do hospital. Neste momento é acionada toda equipe assistencial, realizada triagem imediata e ECG, pela enfermagem, seguida da avaliação médica. Para isso redirecionamos o sistema de som já existente na Unidade.

Na realização do ECG identificamos problemas, tais como: espaço físico inadequado, indisponibilidade do aparelho – gerando desperdício de fluxo e movimentação – e dificuldade de avaliação do traçado do ECG pelo plantonista.

A reestruturação de sala próxima a triagem, equipada com aparelho de ECG digital, para alocação do paciente com dor torácica foi a contramedida adotada para resolução dos problemas estruturais citados. Esse tipo de aparelho permite a transmissão do exame eletrocardiográfico para a UTI cardíaca, onde um cardiologista pode auxiliar na análise do traçado. Vale ressaltar que o aparelho digital, cujo custo assemelha-se ao do ECG convencional, correspondeu ao único investimento financeiro durante a execução do Projeto.

A etapa seguinte, após a realização do ECG, compreende a confirmação do IAMCST. Neste caso, faz-se necessário um rápido preparo para terapia de reperfusão, preferencialmente a angioplastia. Esta etapa, chamada de ‘terapia inicial’, alvo de frequentes atualizações, necessita de ajustes para idade e peso. Também possui contraindicações muito específicas. Desperdícios tais como retrabalhos ficaram evidentes durante esta etapa.

A título de contramedidas, duas inovações foram incorporadas ao Projeto: o chamado KIT IAM, item no qual material e medicamentos necessários para o preparo do paciente ficam pré-organizados e prontamente disponíveis em uma única ação; e a TECLA IAM, recurso instalado no Prontuário Eletrônico, que disponibiliza um ícone para inclusão do paciente no Protocolo. O acionamento da Tecla permite a seguinte sequência:  verificação da disponibilidade da sala de hemodinâmica, solicitação imediata de exames, planejamento dos procedimentos e acionamento de anestesistas e hemodinamicistas. Este recurso garante a prescrição padronizada, de forma extremamente prática, e a conclusão do processo em apenas três minutos.

Resultados obtidos

Para análise dos resultados foram considerados dois períodos distintos: períodos pré e pós implantação do Protocolo. Os pacientes foram distribuídos em quatro grupos de 10 (I, II, III e IV). O período de pré-implantação foi de setembro/2015 a maio/2016. Os pacientes do grupo I (n=10) foram considerados como baseline para avaliação da efetividade do Protocolo, cujo desfecho desejado foi a redução do tempo porta-balão. Os grupos subsequentes (II a IV) corresponderam ao período pós-implantação (n=30), de junho/2016 a junho/2018.

Quarenta e quatro pacientes com IAMCST realizaram angioplastia primária (4 pacientes excluídos por apresentarem atipias que dificultaram a mensuração do desfecho). O gráfico 1 ilustra a evolução do tempo médio porta-balão antes (grupo I) e após a implantação do Protocolo, com redução global significativa de 46%. Melhoria expressiva pôde ser observada e mantida nos pacientes do grupo II e III, com o tempo médio significativo de 68 minutos no grupo IV (24% abaixo do parâmetro da AHA). Outrossim, a linha de tendência denota a queda linear do tempo porta balão apontando para redução relevante de desperdícios. Igualmente expressiva é a evolução do coeficiente de variação do tempo médio porta balão cuja diferença entre o grupo I e IV foi de 35% (gráfico 2). Isto reflete de maneira significativa a melhoria conquistada pela implantação do Protocolo, ou seja, a redução da média do tempo porta balão e dos coeficientes de variação, melhorando, por conseguinte, a relação entre o tempo médio porta balão e a morbimortalidade cardiovascular.

Gráficos

Conclusão

Através da implantação eficiente e segura do Protocolo IAMCST, utilizando processos padronizados pela metodologia LEAN e inovação, o Hospital Aliança conseguiu eliminar desperdícios relevantes no atendimento aos pacientes com infarto agudo do miocárdio, expressos pela importante redução do tempo-porta balão.

Após a execução do Protocolo observou-se também ganhos adicionais expressivos no trabalho em equipe, tais como: integração, distribuição de responsabilidades, clareza das tarefas e reconhecimento dos resultados.

O sucesso da transformação dependeu não só das ferramentas e recursos utilizados, mas também do comportamento e engajamento de todos os envolvidos. Evitou-se assim o pior dos desperdícios – o da capacidade humana.

Por fim, na forma de satisfação, respeito e dignidade, agregou-se muito VALOR a experiência dos pacientes que perceberam – e registraram – a dedicação e empenho dos profissionais em reduzir os tempos de atendimento, preservar músculo cardíaco, e salvar vidas.

Av. Juracy Magalhães Jr, 2096. Rio Vermelho Salvador - Bahia - Brasil. CEP: 41920-900

ACESSE O MAPA